Including the Kitchen Sink
Tuesday, 4 December 2012
Monday, 15 October 2012
OCULTOS BURACOS Colectânea
Mais um contito meu em nova Colectânea de histórias horríveis ou impossíveis!! Não devo ir ao lançamento de novo (ir a Lisboa não fica propriamente barato, estão a ver?), mas se estiverem interessados (e perto), não deixem de aparecer no lançamento no local, data e hora indicada no convite! Um abraço saudoso a todos!
P.S. O Best-seller está demasiado atrasado...sorry! :)
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Tuesday, 12 June 2012
Corda Bamba Colectânea
Meus queridos leitores, para os amigos do facebook, o facto de um conto meu integrar esta colectânea, já não será novidade. Para os restantes amigos e seguidores, cá está o convite se quiserem aparecer no lançamento deste livro excepcional, recheado de histórias desequilibradas dançando numa corda bamba, publicado pela Editora Pastelaria Estudios. Somos 91 autores com 91 histórias diferentes. Para quem esperava conhecer-me pessoalmente, lamento desiludir-vos mas infelizmente o mais provável é não poder estar presente no lançamento, devido a alguns condicionalismos familiares (para não falar nos económicos). Não deixem de estar presentes se puderem nesta grande festa que será o lançamento desta colectânea de talentos na Fábrica Braço de Prata em Lisboa, no dia 30 de Junho pelas 20:00 horas. Quanto ao meu conto, se puderem, não deixem de ler. É um conto original e não foi publicado ainda em qualquer blogue. :) Na verdade, já o escrevi há cerca de dois anos, apenas encurtando-o e adaptando-o para a colectânea. Para quem tiver oportunidade de o ler, espero que gostem! :) Quanto ao next best seller, segue devagar ao seu próprio ritmo, :) mas lá chegarei! Beijos e abraços para todos que ainda se lembrarem de mim!! :))
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Monday, 14 May 2012
Publicidade enganosa (e um até já!)

Schiuuuu... hoje, peço-vos silêncio por favor. Atenção, vós aí a ouvir música ou tv ao mesmo tempo, desliguem isso e dediquem-me toda a vossa atenção exclusiva, por favor... vá lá. Preciso de vós... mas tenho de falar baixinho.... shiuuuu....sussurro porque estou envergonhada... corada até... e depois, não quero acordar os meus fantasmas que acabaram de adormecer. Tenho uma confissão a fazer. A última vez que me confessei? Para ser exacta... não me lembro. Mas isso agora importa?? Adiante... tenho de ser sincera convosco. Hoje apercebi-me que também quero ser escritora como os outros. Que raiva!!!! E quero e quero e quero e pronto!!!!! Neste momento, podem imaginar-me a bater o pé repetidas vezes, a dar murros na mesa, a berrar muito alto, e a puxar os cabelos. Ufa... Se me sinto melhor agora? Por acaso, até já me sinto melhor, obrigada por perguntarem. Vá lá, insegurança, desculpa ter-te acordado, volta para a cama querida, que eu já lá vou com um copo de leite quente e vou tentar não me entusiasmar tanto. Hei!! Vós que estais aí do outro lado desse ecrã, a ler a parvalhice que acabei de escrever, o meu primeiro romance será a vós dedicado, eu prometo! Sim porque haverão vários romances, não sei se alguma vez serão publicados, mas isso não é para aqui chamado. E escusam de estar com sorrisinhos de quem até já sabe que eu estou a brincar e não estou nada a falar a sério nem a me confessar... se isto não é uma confissão, que acabe agora mesmo o mundo inteiro!! Pronto, viram?? É uma confissão, pois! Onde é que eu ia?? Já sei... Ora, como me lembrou e bem o homem do talho, ainda a semana passada, o que está a dar é escrever livros. Acontece que o homem do talho já pôs as mãos a caminho, e não, não me refiro a qualquer peregrinação manual ao santuário de Fátima, mas como quem diz, deitou mãos à obra literária que já começou a escrever. Não querendo ficar atrás na corrida, porque isto de ficar atrás, não dá muito jeito para asmáticos como eu que levam com a pooeira toda levantada, decidi logo ali ao pegar na carne picada e no coelho para assar (estou farta de piadas sobre coelhos, desculpem, vinha a calhar até admito), que também eu escreveria um livro. Portanto, senhoras e senhores, comunico que, em virtude de me encontrar a escrever um best seller, serei forçada a me dedicar praticamente em exclusivo a esta façanha e relegar a blogosfera para segundo plano, pelo que estarei novamente ausente deste e dos restantes blogues, durante um período de tempo indeterminado. Como sei que vai ser um best seller?, perguntarão os mais céticos. Meus queridos, isso é facílimo, porque vai ser esse precisamente, o título do livro... :) Até já!
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Sunday, 6 May 2012
BREATHTAKING
O ano passado, no dia da mãe, ofereci à minha mãe, um blogue. Isso mesmo que leram! :) Escolhi o nome, o template, formatei o blogue com uma foto tirada pela própria que tinha na minha posse, coloquei na barra lateral os gadgets habituais, mapa de visitas, sitemeter, seguidores, arquivo, etc, fiz-me sua primeira seguidora e ofereci-o assim mesmo, embrulhado com carinho e votos de muito entretimento. Esperava incentivá-la a tirar mais fotografias e contribuir para que se distraísse, entretendo-se conciliando a fotografia, paixão recente com o apreço pela natureza, paixão antiga. Ao princípio, a minha mãe, pouco ligou ao blogue e passaram-se até alguns meses até me começar a pedir lições de blogger.. parecia-lhe tudo complicado e difícil e para quem apenas usava a Internet para consultar o e-mail e falar com familiares e amigos distantes, e pouco mais, devo dizer que me conseguiu surpreender com a facilidade com que passou a se "desenrascar" após algumas aulas iniciais. Aos poucos, foi publicando cada vez mais e tornando-se bastante activa. Fiz algumas sugestões iniciais em relação a alguns blogues de fotografia que eu também seguia e rapidamente foi descobrindo por si, outros blogues, tendo neste momento, cerca de 60 seguidores. Nada mau, para quem começou de facto a publicar há apenas oito meses. Hoje, dia da mãe novamente, pensei que a melhor forma de a homenagear, ao seu empenho, evolução e sucesso como blogger, que tanto prazer lhe dá, seria da forma como faço sempre, ou seja, através de um texto com o título do blogue, passando também ele a fazer parte da minha rubrica. Hoje, excepcionalmente, por ser da minha mãe, em dose dupla. Um post aqui em Português e outro completamente diferente em Inglês, sua língua materna no meu outro blogue. Quem quiser visitar este blogue de tirar a respiração, pode visitá-lo aqui. M, it is indeed a blog to be proud of!! Hope you like my presents! Happy Mother's Day!
Pouso em silêncio em quem me acolhe
e quem acolho, escolho
minhas asas em movimento.
A arte rodeia quem se inspira
e quem respira arte, serpenteia
entre os vales e as searas como o vento
enclinando o trigo e o peito numa só direcção
nem sempre a mesma da razão...
A beleza, nunca surpreende
apenas o ar suspende...
é tão vasta a natureza.
No topo da colina avisto e invisto
desisto, entrego-me à falta de oxigénio
Aguarela, pastel ou carvão,
vergo-me a telas de génio,
sustenho a respiração...
Sobrevoo a tela perfeita
valor incalculável se leiloada
Acondicionada de forma insuspeita
manuseada sem cuidado, o impensável...
Uma espécie (ir)racional insaciável
borrata esta paleta,
destrói nosso planeta
num efeito de borboleta...
Falta-me o ar...
traças, passaros e flores
pouso para realçar minhas cores.
No sopé da colina recolho as asas e os pincéis,
aranhas, lagartos e louva-a-deus, diréis
vós crentes em algo mais
sinais divinos evidentes
captados por hábeis lentes em mãos pacientes
![]() |
| Foto de Breathtaking |
Pouso em silêncio em quem me acolhe
e quem acolho, escolho
minhas asas em movimento.
A arte rodeia quem se inspira
e quem respira arte, serpenteia
entre os vales e as searas como o vento
enclinando o trigo e o peito numa só direcção
nem sempre a mesma da razão...
A beleza, nunca surpreende
apenas o ar suspende...
é tão vasta a natureza.
No topo da colina avisto e invisto
desisto, entrego-me à falta de oxigénio
Aguarela, pastel ou carvão,
vergo-me a telas de génio,
sustenho a respiração...
Sobrevoo a tela perfeita
valor incalculável se leiloada
Acondicionada de forma insuspeita
manuseada sem cuidado, o impensável...
Uma espécie (ir)racional insaciável
borrata esta paleta,
destrói nosso planeta
num efeito de borboleta...
Falta-me o ar...
traças, passaros e flores
pouso para realçar minhas cores.
No sopé da colina recolho as asas e os pincéis,
aranhas, lagartos e louva-a-deus, diréis
vós crentes em algo mais
sinais divinos evidentes
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Wednesday, 25 April 2012
OLÍVIA PALITO NO PAÍS DAS MARAVILHAS

Olívia Palito candidatara-se recentemente a um emprego na Europa e recebera por e-mail, o regulamento interno/código de conduta indispensável para ingressar no País de destino, publicitado aos candidatos como o País das Maravilhas.. Por falta de tempo, dado os inúmeros preparativos relacionados com a viagem, não o lera previamente.. Após uma longa viagem transatlântica, quando chegou à fronteira de destino munida de armas (competências profissionais, linguísticas e outras) e bagagens (emocionais, culturais e outras), impediram-na de entrar, alegando que as meias que trazia calçadas, eram azuis escuras o que não era permitido, de todo, segundo o regulamento interno, no País das Maravilhas. Surpreendida, Olívia Palito lá explicou que viera de longe, que estava cansada, que se tinha divorciado do Poppey o marinheiro há pouco mais de 6 meses e que realmente não via nada de mais nas suas meias azuis escuras, na sua opinião, uma cor discreta e condizente com bons costumes. Mas de nada valeu apelar ao segurança, foi mesmo obrigada a mudar as meias.
Abandonou o seu lugar na fila e procurou então o café mais próximo. Vasculhou a sua mala e encontrou umas meias cor da pele. Qual não foi o seu espanto quando novamente na fronteira, lhe foi dito que aquele tom creme era demasiado escuro e que quando voltasse a mudar as meias, deveria ter o cuidado de não escolher um creme demasiado claro. Olívia não queria acreditar no que estava a ouvir. Olhou em volta e realmente na fila de entrada, várias mulheres trocavam ali mesmo na fila, de meias, de sapatos, de camisola, de fita de cabelo. O segurança apontou para um enorme quadro à entrada do País, com as amostras das cores permitidas, em que era especificado qual o tom de creme permitido a quem quisesse passar a trabalhar do outro lado da fronteira. Não tendo naquele momento qualquer outro par de meias, pediu emprestado um par a uma colega de fila, que prontamente lhe cedeu um dos 366 pares que possuía, não fosse o diabo tecê-las e perder a oportunidade de trabalhar no estrangeiro por partir alguma meia de vidro... Novamente chegada a sua vez, o segurança aponta para o pequeno cravo vermelho que trazia ao peito e para a sua blusa. "O que tem a flor? Informaram-me que nesta data era usual usar um cravo vermelho neste País! E a blusa, o que tem?" pergunta perplexa, lembrando-se que tinha substituído a sua vulgar camisola vermelha, por uma axadrezada para a sua nova vida. "Olhe para o quadro!! Não reconhece a combinação de verde e vermelho, pois não?? E nem sequer consegue identificar qualquer tom de verde pois não??" Felizmente, a colega de fila, tinha em sua posse, 366 blusas num tom creme nem muito escuro, nem muito claro...
Nota: Com este post, continuo a rubrica Diz-me como se chama o teu blogue, que eu dir-te-ei o que me apetecer, respondendo a mais um dos muitos pedidos recebidos. Relembro que o conteúdo destes meus contos ficcionados nada têm que ver com os blogues referidos ou com os seus autores, sendo o título do blogue, o único elo comum. Neste caso, o blogue Olívia Palito no País das Maravilhas. Espero que esteja do agrado da sua autora! :)
Sunday, 22 April 2012
ELASTICIDADE qb

"Precisam urgentemente de alargar os horizontes!", afirmava desesperado, o professor do Ensino Secundário do fundo do anfiteatro, perante uma plateia desinteressada. Apenas um aluno, na última fila o interpelou: "Mas como fazemos isso?" "Estudem!, Leiam! Viajem!", respondeu o professor. Destas três hipóteses, apenas a última agradara ao aluno. Aliás, pensou com os seus botões, que seria na sua opinião, a única forma possível de cumprir o trabalhoso dever de casa. Estudar, nem pensar, era muito complicado. Ler, cansava muito... Viajar, era capaz de ser mais fácil, apesar de tudo. Decidiu avançar com o projecto como um desafio pessoal. Nunca gostara muito de estudar, mas de trabalho árduo, nunca tivera medo... Fez um plano de acção, inventariou as viagens que faria para cumprir o objectivo, fez uma lista de compras de ferramentas indispensáveis, fez as malas e despediu-se da família. A todos informou, que apenas voltaria a casa, quando tivesse cumprido o propósito da viagem. Semanas foram-se passando e estas, converteram-se em meses. Estes, em anos... As breves notícias dadas aos familiares, davam conta de travessias de Continentes e Oceanos...
Vários anos passados, o agora, ex-aluno, regressa visivelmente agastado e desiludido a sua casa. Envergonhado, visita o seu antigo professor, agora reformado. "Eu... tentei de todas as formas, alargar os horizontes, mas nunca fui bem sucedido. Ora desapareciam quando chegava perto, ora se escondiam, ou eram simplesmente mais rápidos... nunca os consegui alcançar, muito menos alargar!!" O velho professor, sorriu e perguntou " E nestes anos todos, o que aprendeste?" "Conheci vários Países, vários povos e suas culturas, aprendi várias línguas, ouvi muitas histórias, tive muitos ofícios, conheci pessoas fantásticas e vivi muitas aventuras, aprendendo sempre coisas novas... mas não consegui realizar a simples tarefa que me pediste..." "Estou muito contente contigo meu filho", disse o mestre,"a isso chama-se alargar os teus horizontes... e pela tua descrição, terá sido até bastante!" "Então... fui bem sucedido?", pergunta incrédulo o cansado viajante. "Claro! Espera homem...onde vais com tanta pressa?" "Desculpe mestre... mas vou de viagem novamente... desta vez, no sentido contrário... julgo que está mais do que na hora de redimensionar os meus horizontes e voltar a encolhê-los.. não vão as extremidades sair do globo terrestre!"
Nota: Conto publicado originalmente por mim no blogue colectivo A Voz das Palavras em 2010.
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Tuesday, 17 April 2012
SEM MAGIA O QUE SERIA A VIDA?
Quando perguntavam a profissão do pai na escola, Marta nunca dizia ilusionista que nem sabia o que era, respondendo sempre com orgulho que o pai era magicien, palavra francesa que este lhe tinha ensinado e que queria dizer mágico. Ela sabia que as palavras também podiam ser mágicas e esta pertencia sem dúvida a essa categoria. Pernas cruzadas uma sobre a outra, no tapete da sala, Marta observava com atenção enquanto moedas antigas saiam por detrás das suas orelhas, sem ela saber que elas lá se encontravam e enquanto lenços e flores de diversas cores saiam de caixas e cartolas vazias. Como é que ele sabia que elas lá estavam? De onde vinham? Estas e outras perguntas ficavam sempre por responder. Aproximava-se a data de estreia do seu novo espectáculo e apesar de ensaiar com afinco os números conhecidos, ouvia o pai queixar-se que lhe faltava a pièce de resistance, que ele lhe explicaria tratar-se do último número, o auge do espectáculo, aquele que deixaria o público de boca aberta perante a evidência de pura magia. O pai nunca partilhava os segredos dos truques de magia com ela e Marta não estava autorizada a entrar na oficina onde ele construía e ensaiava as suas ilusões, e onde passava cada vez mais tempo.
Um dia porém, a curiosidade levou a melhor e foi apanhada a espreitar pela fechadura do quarto misterioso. O pai, apesar de ter sorrido e não se ter mostrado zangado, disse "se abrires esta porta, nunca mais verás magia Marta". Era a mais pura das verdades. Mas as verdades dos adultos são diferentes das verdades das crianças, e o que não fora uma advertência, foi sentido pela pequena Marta como uma ameaça e ela simplesmente não conseguia perceber como o pai era capaz de ter segredos que não partilhava com ela. A tristeza converteu-se em recusa de sair do quarto. Promessas de coelhos saídos de cartolas e de pombas aparecendo na palma da mão não foram suficientes para Marta se ausentar do seu refúgio. Passaram-se dois dias inteiros sem que Marta saísse, nem para as refeições. A mãe, naturalmente preocupada apelou ao marido para que usasse a criatividade que tão habilmente se manifestava nos objectos de ilusão que criava, para convencer a filha a sair. No seu Laboratório, trabalhou toda a noite e no dia seguinte, bateu à porta da filha, pedindo-a que o acompanhasse à sua oficina. Marta nem queria acreditar no que ouvia. Entrar na oficina? "Mas tu disseste que...", disse ao entreabrir a porta do quarto. "Eu sei o que disse. E é verdade. Os teus olhos nunca mais verão a magia que vês hoje no palco".
Marta seguiu o pai até à oficina. Hesitou. Colocou a mão na maçaneta da porta e olhou de novo para o pai. "Tens a certeza pai?" "E tu, tens a certeza que queres deixar de ver magia?" Marta rodou a maçaneta para a direita e de novo para a esquerda, abanando a cabeça. "Então prefiro não entrar..." O pai sorriu e disse que a escolha fora a acertada e a mais sensata e para além disso, inteiramente dela. Nos dias que se seguiram o pai aperfeiçoou com a ajuda da mãe, a pièce de resistance a apresentar no próximo espectáculo.
Na noite do grande evento, mãe e filha sentaram-se na primeira fila expectantes. O pai, vestido com o fato que levara ao próprio casamento, apenas lhe adicionando um pequeno laço branco, recebeu uma enorme ovação da plateia. Número após número. a expectativa crescia. Chega então o momento em que pede silêncio na plateia para se concentrar totalmente no último número. Aos poucos, o público vai ficando em silêncio. "Vou precisar de uma voluntária", diz o pai. A mãe de Marta oferece-se. Sobe ao palco e é convidada a se deitar horizontalmente, numa arca com a cabeça de fora numa extremidade e os pés de fora na extremidade oposta, fechando em seguida, a tampa da arca com um cadeado. Depois, o pai mostra aos espectadores horrorizados e incrédulos, uma enorme serra com dentes afiados e serrou a esposa pela barriga, que é como quem diz, a meio, separando a arca em duas metades. Marta ainda berrou "Não papá!", mas fora tarde demais. No seu coração sabia que não havia nada que o seu pai não conseguisse fazer, mas ver a cabeça da mãe num extremo do palco tão afastada dos seus pés, fê-la temer nunca mais ver a mãe inteira. Enquanto a cabeça da mãe da Marta continuava a sorrir tão longe dos seus pés, para espanto dos presentes, toda a plateia susteve a respiração. Tal como esperado, não tardou que o pai juntasse as duas partes da arca, tapando-as com uma manta de veludo e dissesse umas palavras mágicas. Sua mãe sairia inteira e sorridente da caixa e a sua coragem seria extensamente aplaudida. Não se contendo, Marta sobe os degraus para abraçar ambos os pais. Seria a primeira de muitas vezes em que partilharia o palco com os seus pais. Mas nessas vezes, não seria mais vista pelo público e teria ainda que esperar uns anos, até calçar o mesmo numero de sapatos que a sua mãe.
Nota: Com este post, continuo a rubrica Diz-me como se chama o teu blogue, que eu dir-te-ei o que me apetecer, respondendo a mais um dos muitos pedidos recebidos. Relembro que o conteúdo destes meus contos ficcionados nada têm que ver com os blogues referidos ou com os seus autores, sendo o título do blogue, o único elo comum. Neste caso, o blogue SEM MAGIA O QUE SERIA A VIDA?. Espero que esteja do agrado da autora Irene Alves!
Friday, 13 April 2012
Gémeos

Nunca tinha visto um cadáver. Nem sequer o pai lhe tinham deixado ver no caixão quando este falecera. A mãe afirmara na ocasião que ela era demasiado nova e que a poderia impressionar. Porque haveria o pai morto, de a impressionar? E porque se estaria a lembrar tão vivamente dessa frase, precisamente naquele momento? Não tinha dúvidas que tinha um certo receio infundado de ver um morto. Mesmo assim, aceitara o emprego. A necessidade, assim a obrigara. Imaginando que com o hábito, conquistaria os seus receios, disse na entrevista na agência funerária que era a pessoa indicada para o trabalho e que inclusivamente, já tinha dado de caras com inúmeros falecidos. Quem não tenha já floreado um currículo, mentido numa entrevista de emprego ou exagerado conquistas ou competências, que atire a primeira pedra...
Era o primeiro dia no emprego novo. Seria confrontada em breve com o seu primeiro cadáver e também, com o segundo. Ali na sala onde se encontravam os corpos, a janela aberta acolhia uma brisa fresca de Verão, fazendo as cortinas rodopiar ligeiramente numa coreografia tão repetitiva quanto discreta. O suficiente para contrastar com o silêncio e a imobilidade dos que embora presentes, se encontravam já ausentes. Uma mulher, de negro, sentada numa cadeira, imóvel, sedada, num estado de torpor induzido, aponta para ambos os caixões colocados em cima da mesa da sala de jantar. "Estão aqui os meus meninos", repete descrente. Lado a lado, duas urnas idênticas separadas por um arranjo floral no centro da mesa. Em cada urna, um jovem em tudo idêntico. O mesmo fato, os mesmos sapatos, o mesmo corte de cabelo. A mesma data de nascimento, o mesmo útero, o mesmo destino. A ela não lhe competia perguntar qual a fatalidade que os trouxera até à mesa da sala de jantar, e embora a sua curiosidade, assim o ditasse, remeteu-se ao mesmo silêncio dos jovens.
Abriu a sua maleta de maquilhadora profissional e iniciou o seu trabalho. O medo dissipara por completo. À sua frente, duas telas, dois rostos de gesso branco. Pincéis de diversos tamanhos e feitios tocavam e retocavam pós e cores nos rostos dos jovens cuja vida encurtara abruptamente. Todas as imperfeições da pele, todos os vestígios da morte, disfarçados. Do ponto de vista meramente pratico, o facto dos clientes se encontrarem inertes era até uma vantagem. Considerava o seu trabalho uma arte, o velório, seria mais uma mera encenação dramática. Quando o trabalho estava concluído, olhou para a sua obra e exclamou satisfeita, "iguaizinhos!" Deu por terminado o serviço, organizou e acomodou os pós da cor da pele de uma donzela, e os de carmim, assim como os diversos pincéis de pêlo de cabra na sua valise, despedindo-se respeitosamente da mãe dos jovens que esperara pacientemente sem a interromper e não se movera um milímetro sequer.
Mais tarde no funeral, apercebeu-se que os jovens já não estavam maquilhados. Não havia qualquer vestígio da sua arte. Sentindo-se ofendida pela anulação do seu trabalho artístico esmerado, interpelou o agente funerário, pelo motivo. "A mãe não quis que eles se pudessem confundir...", terá dito o mesmo. Perplexa, talvez pela imaturidade dos anos, apenas disse "mas eles são idênticos na mesma!"
Texto publicado no âmbito do desafio do mês de Abril 2012, Rostos- para Fábrica de Letras
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Thursday, 5 April 2012
A REDENÇÃO

Embora em desuso em certas localidades, ao longo da avenida da história da Igreja dos homens, o Compasso, ainda se realiza. É o anúncio da Boa Nova que traz o Cristianismo. Passa devagar... perante os numerosos devotos e curiosos... À frente, o símbolo do Cristo redentor, e do Seu sacrifício na Terra. Uma cruz de madeira, pesada, tornada leve, pelo número elevado de carregadores que a levam... um anúncio de esperança, de renascimento... uma promessa de redenção...
Os seus ajudantes, surgem de estradas calcetadas, rectas, iluminadas e harmoniosas... mas surgem também de ruelas e vielas escuras, sarjetas escondidas... uns e outros, envergam túnicas de cores fortes, Pascais... cores vivas... tão vivas, quanto o sangue derramado na cruz, tão vivas quanto as memórias e o sofrimento de vítimas inocentes, cuja confiança traíram... sob paramentos de linho branco, puro e imaculado, lágrimas de crianças, vítimas de lobos disfarçados de cordeiros. O Compasso, avança devagar... ao júbilo do sacrifício redentor anunciado, juntam-se aos poucos, as vozes corajosas dos que surgem com a sua própria cruz. Surgem de todos os cantos do mundo, juntando-se num grito de revolta na avenida principal. Infelizmente, mais se juntarão ainda, certamente... o silêncio imposto será lentamente substituído pelo grito de dor de uma panela de pressão a que se retirou a tampa. Tantas cruzes... uma só traição.
O anúncio de paz e de libertação eterna, terá sido para tantos, uma lança no próprio peito, sentida como uma facada nas costas e uma coroa de espinhos eterna... Esta Páscoa, o meu pensamento, vai para estas vítimas, caídas na avenida do tempo, a quem os portadores da boa nova, não só, não deram a mão, mas condenaram muitas vezes, a um inferno precoce. Que aqueles que envergam a verdade e sejam verdadeiramente iluminados no seio da Igreja, não permitam mais que a hipocrisia acompanhe o Compasso, e vão retirando as ervas daninhas que encontrarem pelo caminho.
A busca pela redenção dos pecados das ovelhas negras do rebanho, é individual, a cada um pertence e será do reino do Divino... A procura de redenção da própria Igreja pelos seus pecados, será necessariamente feita na Terra... e não bastará confessar-se, antes da Eucaristia...
_/_
DESEJO A TODOS OS AMIGOS DESTE BLOGUE, UMA BOA PÁSCOA!
Nota: Texto publicado originalmente por mim no blogue colectivo A Voz das palavras em 2010.
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Monday, 2 April 2012
Uma visita à casa de penhores
Num momento irreflectido, o Zé deslocou-se à Casa de Penhores da esquina.
"Por quanto posso penhorar a minha alma?", perguntou o Zé esperançado.
"X", respondeu laconicamente o proprietário da Casa comercial.
"Só vale isso?", admirou-se o Zé.
"Se achar que é pouco, pode sempre vender ao Diabo...".
"Não! Cruzes, credo!" É esse o seu preço final então?", pergunta hesitante um Zé, um tanto desesperado...
"Tenho a casa cheia de almas, sabe...".
"Compreendo... aceito então!", gritou o Zé, com reservas, mas determinado.
Mal tinha posto o pé na calçada, arrependeu-se e voltou a entrar.
"Desculpe", disse,"houve um engano terrível... eu na verdade, não pretendia penhorar a minha alma. Foi um momento irreflectido... melhor dizendo, estou arrependido pronto! Não ma pode devolver?"
"Ah, ah, ah... essa teve graça... quase me convencia! Olhe que você tem jeito para humorista! Ou político..."
"Pois, mas eu arrependi-me mesmo! Quero a minha alma de volta, custe o que custar!!"
"Custe o que custar? Assim já é falar homem! Porque não disse mais cedo? Ora vejamos... pode recuperar a sua alma, por 5xX"
"???????, Mas, eu acabei de lha entregar...
O Zé, resignou-se e guardou a cautela de penhor. Chegada a data de vencimento, continuava sem dinheiro e compreendeu que dificilmente recuperaria a sua alma. Estava perdida. Alguns dias mais tarde, foi bafejado pela sorte, quando herdou de um familiar distante, uma grande fortuna. Convencido que seria fácil reaver a sua alma, voltou à casa de penhores e perguntou quanto valia a mesma, pois pretendia comprá-la de volta. Mas a alma, acabara de ser vendida a um cliente que ainda se encontrava na loja.
"Que azar... acabei de vendê-la a este Senhor...", disse o proprietário.
"Por favor venda-ma de volta! Eu pago o que quiser por ela!!", suplicou o Zé ao cliente. Nesse preciso momento, chegou um outro cliente habitual, de capa preta e forquilha na mão, que ouvindo a conversa, adianta: "Seja quanto for, que o Zé oferecer por ela, eu cubro a oferta!!"
Quanto vale a alma do Zé? O valor atribuído pela avaliação do proprietário da Casa de penhores ? O valor que o Zé está preparado para oferecer por ela? Ou o que o Diabo irá oferecer por ela?
Nota: Texto publicado originalmente por mim, no blogue colectivo A voz das palavras em 2010.
"Por quanto posso penhorar a minha alma?", perguntou o Zé esperançado.
"X", respondeu laconicamente o proprietário da Casa comercial.
"Só vale isso?", admirou-se o Zé.
"Se achar que é pouco, pode sempre vender ao Diabo...".
"Não! Cruzes, credo!" É esse o seu preço final então?", pergunta hesitante um Zé, um tanto desesperado...
"Tenho a casa cheia de almas, sabe...".
"Compreendo... aceito então!", gritou o Zé, com reservas, mas determinado.
Mal tinha posto o pé na calçada, arrependeu-se e voltou a entrar.
"Desculpe", disse,"houve um engano terrível... eu na verdade, não pretendia penhorar a minha alma. Foi um momento irreflectido... melhor dizendo, estou arrependido pronto! Não ma pode devolver?"
"Ah, ah, ah... essa teve graça... quase me convencia! Olhe que você tem jeito para humorista! Ou político..."
"Pois, mas eu arrependi-me mesmo! Quero a minha alma de volta, custe o que custar!!"
"Custe o que custar? Assim já é falar homem! Porque não disse mais cedo? Ora vejamos... pode recuperar a sua alma, por 5xX"
"???????, Mas, eu acabei de lha entregar...
O Zé, resignou-se e guardou a cautela de penhor. Chegada a data de vencimento, continuava sem dinheiro e compreendeu que dificilmente recuperaria a sua alma. Estava perdida. Alguns dias mais tarde, foi bafejado pela sorte, quando herdou de um familiar distante, uma grande fortuna. Convencido que seria fácil reaver a sua alma, voltou à casa de penhores e perguntou quanto valia a mesma, pois pretendia comprá-la de volta. Mas a alma, acabara de ser vendida a um cliente que ainda se encontrava na loja.
"Que azar... acabei de vendê-la a este Senhor...", disse o proprietário.
"Por favor venda-ma de volta! Eu pago o que quiser por ela!!", suplicou o Zé ao cliente. Nesse preciso momento, chegou um outro cliente habitual, de capa preta e forquilha na mão, que ouvindo a conversa, adianta: "Seja quanto for, que o Zé oferecer por ela, eu cubro a oferta!!"
Quanto vale a alma do Zé? O valor atribuído pela avaliação do proprietário da Casa de penhores ? O valor que o Zé está preparado para oferecer por ela? Ou o que o Diabo irá oferecer por ela?
Nota: Texto publicado originalmente por mim, no blogue colectivo A voz das palavras em 2010.
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Wednesday, 28 March 2012
Eco-ponto inovador
No início deste ano, houve uma cidade Portuguesa, cuja Câmara Municipal tomou uma iniciativa inédita em todo o Mundo. Tendo em vista, o bem-estar e a felicidade dos habitantes do Concelho, como consta do panfleto explicativo enviado aos munícipes, o Presidente da respectiva Câmara, de consciência ecológica apurada, mandou instalar junto dos vários eco-pontos do Município, um Desgostão. Como o próprio nome indica, à semelhança do Vidrão, e seus congéneres azul e amarelo, o desgostão, tem uma etiqueta vermelha e preta às riscas, e destina-se à recolha dos desgostos, frustrações, revoltas, dores, sofrimentos, da população. Como seria de prever, esta iniciativa, rapidamente se tornou num sucesso, amplamente aplaudido. E apesar de não ter contado com o apoio do partido da oposição, ao fim de apenas três semanas de implementação, e dado o acolhimento da população, esta até já veio dizer em público que a ideia original até tinha sido sua...
Segundo consta, basta ir até um destes eco-pontos espalhados pela cidade, para avistar uma extensa fila no início de cada noite, de vários moradores, carregando os pesados sacos para depositarem no ponto de recolha inovador... Todas as noites, a fila aumenta. No site oficial da Câmara Municipal, ao lado da fotografia mais recente do Presidente da CM, divulga-se o facto da iniciativa ter ganho até um prémio Internacional.
O autarca deu uma entrevista na rádio local no final do ano passado que tive ocasião de escutar e resumirei brevemente. Nessa entrevista, o Presidente da CM, incentivou publicamente os cidadãos a depositarem os desgostos e a confiarem em quem os tratasse. Lembrou que era muito melhor terem quem profissionalmente lidasse com esses fardos e referiu ainda que estimava que a população iria ser muito mais feliz sem desgostos.
Quando lhe perguntaram em relação ao desemprego no Concelho, referiu que esse problema iria ser parcialmente resolvido com a criação de inúmeros postos de trabalho, quer na nova fábrica de manufacturação de desgostões, na Instalação definitiva que iria ser construída para o tratamento dos desgostos e na empresa publico-privada que se esperava que surgisse, de gestão da vasta rede de recolha dos resíduos nos desgostões.
Em breve, dada a adesão em massa dos munícipes, vai abrir um concurso para o tratamento dos resíduos, pois ninguém sabe muito bem, o que fazer com os desgostos que se vão amontoando. Em virtude deste facto, o já internacionalmente famoso autarca, deu recentemente, já no início do ano, nova entrevista, desta vez, a um jornal nacional, que por mera coincidência, também li. Basicamente, falou do prémio que a autarquia recebera, agradeceu a adesão da população e desejou um excelente ano aos munícipes, cheio de desgostos. Perante esta afirmação inesperada, o jornalista, perplexo, confrontou o interlocutor com a ideia previamente referida na entrevista radiofónica anterior, de que os depósitos de desgostos gerariam a tão esperada felicidade, sendo portanto previsível uma redução dos mesmos, e indagou porque desejaria ele aos seus habitantes, que tivessem muitos desgostos neste novo ano. O Presidente mostrou-se surpreendido, "Não percebi muito bem a sua pergunta, mas deve estar a referir-se ao discurso pré-eleitoral... repare, o que nós temos é de incentivar o emprego, ou seja, aumentar a criação de emprego para dar cabo dos desgostos. Como compreenderá, não fazia sentido, nem nunca fez parte dos planos da Câmara, que a quantidade de desgostos diminuísse..."
Nota: Texto originalmente publicado no meu blogue The Big Chill em 2010
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Saturday, 24 March 2012
LIDACOELHO
"Pai! Pai...como eu faço para ser lida?"
"Para ser lida?"
"Sim! Para ser o lida de todos os coelhos!"
"Não sei o que queres dizer filho..."
"O lida! Aquele que manda! Quero ser um lida! O lida coelho!"
"Bem... primeiro tens de obedecer à tua mãe e ao teu pai..."
"Mas eu é que quero mandar! Eu é que quero ser o lida!! E depois vocês é que me obedeciam! Eu passava a ser o lida de todos os coelhos!! E de todos os outros animais do bosque... e depois de todos os humanos...e eu mandava no mundo todo e podia fazer tudo o que eu quisesse... e..."
"Calma! Calma... ser líder não é fácil! Um líder, ou é eleito pela maioria, ou voluntaria-se e é aceite por todos, ou então toma o poder à força e derruba o actual líder..."
"E quem é o actual lida?"
"E quem é o actual lida?"
"Sou eu."
"Hum???... "
"Hum???... "
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Wednesday, 21 March 2012
CRÓNICAS DO ROCHEDO

Caros fellow bloggers,
Escrevo-vos da penitenciária mais famosa do mundo recentemente reaberta fruto do imaginário de alguns argumentistas de uma série televisiva norte-americana. Certamente estarão surpreendidos pela minha clausura em estabelecimento prisional de alta segurança... acontece que desde que assassinei o The Big Chill em Junho de 2010, a minha personalidade digitopata tem-se acentuado, ao ponto de ter procurado ajuda profissional. Esta minha tendência digitopata manifesta-se ciclicamente e embora eu sempre tenha negado esse título estigmatizante, fui confrontada recentemente por um fellow blogger que me chamou à razão. Fui obrigada a admitir que era verdade, quando eliminei sadicamente os registos de chamadas e mensagens do telemóvel. A sensação de alívio e de prazer associada à eliminação de dados digitais confirmaram as suspeitas que há muito eu procurava negar. É verdade, sou uma digitopata. Os dados digitais não têm qualquer valor para mim e sou totalmente indiferente à sua violenta eliminação. Para os mais incrédulos, revelo que ainda mantenho uma agenda em formato de papel com os contactos telefónicos e aniversários de familiares e amigos...
A terapia até corrria bem, embora os pensamentos blogopatas persistissem. O facto de ter confessado ter liquidado a minha conta do facebook apenas dois meses após a abertura foi um momento importante na evolução terapêutica. E a reanimação da conta uns meses mais tarde deu esperança ao meu terapeuta que me garantiu que eu estava progressivamente mais integrada digitalmente. Acontece que uma vez digitopata, dificilmente deixamos de ter estes pensamentos maquiavélicos de assassínio em série. Ocultei que durante os últimos anos, criei e eliminei várias contas de e-mail, tendo o cuidado de eliminar todos os dados pessoais previamente. Sabia que se confessasse estes actos, o mais certo era acabar detida... mas num lapso momentâneo, acabei por revelar que num acesso de fúria, eliminei vários números do meu telemóvel, pelo que o terapeuta ficou ciente da gravidade da situação e foi obrigado a contactar as autoridades. Na realidade, até foi bom porque assim o plano engendrado para liquidar o Including the Kitchen Sink, na data do seu primeiro aniversário, não pode ser levado por diante...
Partilho a minha cela com um mata-moscas que ainda há pouco foi sedado coitado porque mesmo aqui na cadeia continua instrumentalizado e insiste em matar melgas ocasionais... Na ala inferior à minha, só há rabos. Não vou nomear a quem pertencem, até porque daqui parecem todos iguais... posso apenas dizer que há diversos políticos, personalidades ligadas ao futebol, às autarquias, celebridades e afins que têm o rabo preso...Há quem esteja preso por ter cão e há quem esteja cá e não tenha cão nenhum! Chegou ontem mais um prisioneiro mas ainda ninguém o viu. Há quem jure que é o Vale e Azevedo, mas eu penso que se alguém o viu, foi efeito dos cogumelos servidos no refeitório ontem à noite...
Disseram-nos que iam reduzir o tempo que tínhamos de convívio, desde que o Zeca, o tipo na cela ao lado da minha, formatou voluntariamente o pc colectivo, não tendo o cuidado de proteger os dados indefesos. Foi uma chacina digital e por causa dessa brincadeira o Zeca foi parar à solitária e nós lixamo-nos sem direito a ir apanhar ar durante 15 dias Agora, frequenta o mesmo grupo terapêutico que eu. Também está cá o nosso amigo Google Reader. Não sei quantos posts de blogues o tipo já eliminou, mas nos corredores falam que serão milhares as vítimas inocentes que desapareceram da blogosfera. O terapeuta não parece muito optimista em relação à sua recuperação...
Acabo esta crónica, informando que nesta data do PRIMEIRO ANIVERSÁRIO deste blogue, não o vou assassinar (para já...) como previsto, dado que estou rodeada de agentes dissuasores :) E embora a ideia, volta e meia surja, tenho feito um esforço para a controlar. Se no entanto, por um impulsos incontrolável, o blogue vier a ser assassinado, peço que me perdoem e me visitem volta e meia na cadeia (mas não demorem muito senão arriscam-se a não me encontrar por cá! É mesmo o mais certo... rrsssss)
Nota: Com este post, continuo a rubrica Diz-me como se chama o teu blogue, que eu dir-te-ei o que me apetecer, desta vez com uma homenagem e não respondendo a um pedido. Relembro que o conteúdo destes meus contos ficcionados nada têm que ver com os blogues homenageados ou com os seus autores, sendo o título do blogue, o único elo comum. Neste caso, o blogue Crónicas do Rochedo. Carlos, embora o texto nada tenha que ver com o seu blogue, espero que goste! :)Se quiserem saber mais sobre Alcatraz, vejam aqui.
Monday, 12 March 2012
AVE SEM ASAS
Na floresta de Sure-would, onde vivia, Amélia sonhava ser aviadora, praticamente desde que saíra do ovo da sua mãe. Um sonho acalentado e partilhado pelos pais, que nunca tiveram essa oportunidade. Um dia no entanto, uns oficiais do Xerife de Nothing-home, afixaram um edital governamental na floresta, estipulando que todas as aves, independentemente da espécie, estavam proibidas de voarem e teriam de ver retiradas todas as suas asas. Esvoaçando as suas asas, as diferentes espécies de aves incrédulas e indignadas, circularam o poste em que estava afixado o edital, em protesto, havendo até quem desse bicadas intermitentes, desfazendo o aviso em muito pouco tempo e nem o seu herói Roubem-mas-é-dos-Bancos, lhes valeu.
Mas a lei seria cumprida à risca... e em breve, o Xerife de Nothing-home, levantaria uma tenda de circo com funcionários disponíveis todo o ano, para cortar e retirar as asas a todas as criaturas voadoras e não voadoras que as possuíssem. Amélia esperou a sua vez na fila, cabisbaixa. Aquelas asas, eram a sua liberdade, o seu sonho... viu uma a uma, as aves sairem da tenda com as respectivas asas cortadas. Umas traziam-nas numa caixa, outras num saco de papel, mas traziam todas um apára-lágrimas como oferta, cortesia governamental. Como se a oferta ilibasse o Xerife de culpa de depenação colectiva...
"Já ouviste a novidade?", segredou-lhe a prima. "parece que as galinhas de ovos de ouro, não têm que retirar as asas!"
"Não?", perguntou Amélia, "Porquê?"
"Eu ouvi dizer que os pombos correios também não vão tirar as asas... uma excepção qualquer... precisam delas mais que as outras aves... não percebi..."
"Pensava que as aves de rapina eram a única excepção!", rematou a mãe de Amélia
"Mas espera aí... afinal... quem é que foi depenado e tirou efectivamente as asas??", perguntou Amélia,
"Nós!", ouviu da sua família inteira.
"Então nós é que somos a excepção... todas as outras mantêm as asas?"
"Parece que é essa a regra...
"Eu também precisava das minha asas!", grita Amélia, desembrulhando agradecida a oferta governamental de cortesia.
Nota: Com este post, continuo a rubrica Diz-me como se chama o teu blogue, que eu dir-te-ei o que me apetecer, respondendo a mais um dos muitos pedidos recebidos. Relembro que o conteúdo destes meus contos ficcionados nada têm que ver com os blogues referidos ou com os seus autores, sendo o título do blogue, o único elo comum. Neste caso, o blogue AVE SEM ASAS Espero que esteja do agrado da sua autora!
Saturday, 10 March 2012
NA CASA DO RAU

In the mysterious woodland, it stood out as a shiny colourful magnet. Anyone entering those woods was bound to end up at that unexpected oasis. Not a single soul could ever find itself lost in that particular forest for every path had one single direction and designated destination. Every road led undoubtedly to Rome but it led through Rau's house first.
Once you went passed the violet coated gates, you were transported to a land of curiosity and possibilities. There was a welcoming feel in the surroundings. Dancing lilies offered cocktails and coconut water and butterflies dropped assorted dry fruits here and there leading you on. You knew you were meant to climb the tree as soon as you took a glance at it. At the top of the tree, an open door, invited you in. Stained glass windows let the sunlight flood a tiny library with rainbow reading lamps where a swinging hammock hung from one fairytale book shelf to another.
Sure enough, you would find yourself welcomed by not one but several versions of the same elf. Rau was an elderly elf, retired from the magical world, but eager to please visitors and perform a trick or two, for old time's sake. "Please read me a fairytale", each version would plea and visitors were expected to lay comfortably in the hammock for hours on end and read countless stories, pretending not to notice the recipient was one and the same. These different characters, the host's multiple personalities, competed with each other every day for the best host award. As the panel was composed by the contestants themselves, they took turns but made sure one of them always won.
In the evening, the replicated elf hosts would entertain guests with dancing acts and magic tricks and later on, every single one would retire to a chamber at the side of the house, where they merged into one to fit in the elf's tiny flower bed. Guests would then feel the house empty without their presence and sense the faint lavender odour gently fade away, wishing for it's hasty return. I know this to be true, for I was once this elf's guest. Once a guest at Rau's house, no matter where you are, you will always find your way back.
Nota: Com este post, continuo a rubrica Diz-me como se chama o teu blogue, que eu dir-te-ei o que me apetecer, respondendo a mais um dos muitos pedidos recebidos, desta vez, em Inglês, porque me apeteceu, :) Relembro que o conteúdo destes meus contos ficcionados nada têm que ver com os blogues referidos ou com os seus autores, sendo o título do blogue, o único elo comum. Neste caso, o blogue NA CASA DO RAU. Espero que esteja do agrado da sua autora! Demorei mais do que o previsto, :) mas cá está Ná!
Thursday, 8 March 2012
A BOA REBELDE
As escolhas que fazemos ao longo da vida , para além de serem determinadas por quem já somos, determinam muito do que podemos vir a ser, mas também a forma como somos percepcionados. E, por mais incompreendidas que sejam, por observadores externos, são uma manifestação de intenções, aspirações e objectivos pessoais. É frequente, certas escolhas, serem fonte de discórdia, desilusão ou revolta ou simples incompreensão no seio de familiares e amigos. Assim como, alvo de preconceito, ou julgamentos precipitados por parte de desconhecidos. Quando uma opção de vida é encarada como sinónimo de algo mais do que apenas isso mesmo, facilmente se atribuem estereótipos a essa escolha... e, por isso mesmo, passa a ser objecto de crítica...Há muitos anos atrás, fiz uma escolha consciente, fruto de uma ambição intensa e duradoira, mas muito pouco compreendida por terceiros... Optei por ficar em casa com os meus filhos e ser mãe, cuidadora, ama, empregada, cozinheira, motorista, educadora, dos meus filhos a tempo inteiro. Felizmente, o orçamento familiar na altura permitia-me a liberdade dessa opção (only just...). Naturalmente que exigia contenção, sacrifícios, boa gestão, mas largamente compensada pelo prazer de realizar a única ambição que me lembro de ter tido.
Quando tomei uma opção destas, consciente de que era uma raridade nos tempos modernos(em Portugal), estava longe de imaginar, que a forma como seria encarada pelos outros mudaria tão drasticamente. Existe uma imagem da chamada dona de casa (expressão infeliz, porque isso, somos todas!), que é nitidamente pejorativa... como se fosse fruto de preguiça.. inaptidão, incompetência, estupidez, ou ainda estatuto socio-económico muito elevado, (derivando daí, preconceito acrescido...) e como se, o resultado dessa escolha, seria uma mulher desligada da realidade, da contemporaneidade, com pouco que fazer (yeah, right...), cada vez menos interessante, menos culta e mais burra! Depois, existem sempre aquelas outras pessoas com aquela invejazinha, ainda por cima, mal dissimulada, que gostariam de estar no nosso lugar...
Existe com frequência, a presunção de que alguém que faz uma escolha destas, deve estar a nadar em dinheiro... pensa-se frequentemente que a opção é feita porque a mulher não precisa de trabalhar... e raramente se pensa, nos possíveis sacrifícios que faz com menos rendimento porque as suas prioridades na vida são outras... Para mim, era importante estar em casa... assim como para outras pessoas, poderá ser importante lhes proporcionar um colégio particular, férias em locais exóticos todos os anos ou roupas de marca... ou a sua realização pessoal se fazer sobretudo através da realização profissional... Não faço aqui qualquer juízo de valor, as coisas têm o valor relativo que cada um lhes atribui, naturalmente. Imaginem que eu pensava que estar presente era mais importante que tudo isso, que nunca lhes proporcionei... para mim, e para eles... E a minha realização pessoal passava muito mais pela realização como pessoa do que como profissional. E surpresa das surpresas, não penso ter ficado mais burra, menos culta, menos interessada na vida em geral, muito pelo contrário!
Por vezes, existia também a noção, de que estava a desrespeitar a luta pela emancipação da mulher ou pela igualdades de direitos entre géneros, ou que não estava a valorizar as aptidões com que Deus me agraciara (serão poucas, rrss, mas serão algumas mesmo assim...)... ou até mesmo a desperdiçar os estudos Universitários... e tudo isso para ficar em casa e ser Dona de casa? E eu respondia... A liberdade não é isso mesmo? A liberdade de escolha? Posso por favor viver como entendo me realiza mais, sem ser julgada pela sociedade, como uma "parasita"? I mean... quantos empregos existem na sociedade, que são totalmente inúteis à sociedade como um todo e meramente exiistem para assegurar a sobrevivência de quem o exerce? Bastantes... Educar os meus filhos a tempo inteiro em vez de delegar essa responsabilidade a terceiros, não é uma opção legítima? Lembro-me de ter conhecido uma vez alguém que me disse que eu era a primeira mulher que ele conhecia que dizia gostar de estar em casa... e que ele não acreditava nisso... tant pis pour lui... é que eu gostei verdadeiramente de estar em casa!! E não trocava esses anos por nada!!
Nota: Texto publicado originalmente por mim no blogue colectivo A Voz das palavras em 2010.
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Friday, 2 March 2012
Um dia, a vida é a cores
Vestiu-se calmamente, tomou o seu café matinal e deixou como sempre, a cozinha arrumada. Ninguém diria que não fazia intenção de voltar a ela. Pegou na sua documentação de identificação pessoal e nas suas chaves. Trocou as pantufas pelos velhos sapatos, olhou em volta do seu pequeno apartamento e deixou como era hábito, a casa a arejar. Caminhou em direcção à frente marítima da sua cidade, a Póvoa de Varzim, e avançou para a extremidade do molhe. Pausou, reflectindo. Não tinha qualquer dúvida. Não queria continuar a viver. O desemprego de longa data, a perda de qualidade de vida, a sensação de inutilidade, aliada à solidão e à depressão que o perseguiam, conduziriam a este desfecho, sentido como eternamente adiado, e hoje, inevitavelmente concretizado. Aproximou-se da borda e olhou o mar. Eternamente, o mar. O mar, presença constante na sua vida. O mar, em tempos, objecto preferencial da sua paixão, a fotografia. Hoje estava revolto, feroz, perfeito para o efeito desejado. Saltaria daí a poucos segundos, se não tivesse um pequeno objecto deixado num canto, captado a sua atenção.
Hesitou durante breves segundos, se seguiria com o seu penoso propósito de terminar ali a sua vida, ou se a sua curiosidade de fotógrafo amador levaria a melhor. Seria esta última hipótese, a vencedora. O objecto, era uma máquina fotográfica, aparentemente abandonada. Olhou em volta, não vislumbrou possível dono. Provavelmente teria sido esquecida. Nunca tinha visto uma máquina daquelas. e considerava-se conhecedor destas ferramentas de captação da realidade. A maquina não era parecida com nenhuma outra que tivesse visto anteriormente.
No pequeno visor, havia a indicação que teria um rolo com dez fotos ainda por tirar. Não conseguiu evitar, afinal, não tinha nada a perder, e decidiu experimentá-la. Apontou a maquina na direcção do casino e tirou uma foto. No visor apareceu o número nove. A maquina estava a funcionar bem, sem problemas aparentes. Para seu espanto, daí a poucos segundos, sairia da maquina a respectiva foto. Embora tivesse a aparência de uma maquina antiga, básica no seu funcionamento, aparentemente, tirava fotografias do tipo polaroid, reveladas instantaneamente, com a particularidade de serem a preto e branco.
Ao olhar atentamente para a foto,reparou que havia nela, algo de estranho. Havia menos pessoas em redor do casino do que aquelas que se encontravam efectivamente. E estavam de manga curta em vez dos agasalhos de Outono que deveriam envergar. E embora estivessem várias crianças a brincar nas imediações, elas não apareciam na fotografia. Havia também, mais luminosidade na foto, e não havia nuvens, ao contrário daquele dia cinzento. A envolvência do casino, estava diferente, parecia quase como há alguns anos atrás se encontrava. Pensou que tivesse ocorrido algum erro e que tivesse revelado uma foto tirada previamente. Decidiu então, tirar outra foto.
Tirou uma foto de um casal de namorados sentados num banco ali perto. Em breve, sairia uma foto do mesmo banco, a preto e branco, mas na foto, estavam duas crianças. O Manuel começou a sentir que havia algo muito estranho a se passar e examinou com mais atenção, o objecto que tinha em mãos. Reparou que havia um pequeno manípulo que podia ser colocado em apenas duas posições opostas. Virou-o na direcção oposta , voltando a tirar uma foto ao mesmo casal. A foto que sairia em breve, deixaria o Manuel assustado, ao ponto de inadvertidamente, deixar cair a maquina ao chão. O casal de namorados, estava nitidamente envelhecido, cerca de vinte anos. Mas era, sem margem para dúvidas, o mesmo casal, perfeitamente reconhecível. Voltou a olhar para a foto que tirar anteriormente. Agora, facilmente identificava as crianças como sendo uma versão mais nova de cada elemento do casal.
A perplexidade, cedo deu lugar a uma espécie de incredibilidade e mesmo ansiedade. Pensou longamente sobre o que fazer com o seu achado. Decidiu, que acabaria o rolo, antes de prosseguir a sua viagem agendada para aquele dia. Tirou várias fotos da Avenida dos Banhos, com o manípulo em ambas as posições, e sorriu ao reconhecer as lojas do passado e ao ver as do futuro. Ambas tão diferentes das lojas actuais. À medida que se aproximava do final do rolo, o Manuel, sentia-se mais calmo. Sabia perfeitamente que a vida continuaria sem ele, mas agora, podia vê-la em primeira mão.
Uma nova ideia começou a surgir na cabeça do Manuel. Quando acabasse o rolo, compraria outro. Só para se entreter mais um bocado, antes de ir, pensou ele. Confirmou se tinha dinheiro suficiente na carteira para um novo rolo e foi até a uma loja de material fotográfico ali perto, na Junqueira. Embora gostasse bastante de fotografia a preto e branco, decidiu comprar um rolo a cores e experimentá-lo na maquina estranhamente revolucionária. E tirou, uma após outra as fotos que a criatividade e a curiosidade permitiram. Mas as fotos, sairiam todas, apesar do rolo, a preto e branco, sem excepções.
Um casal de turistas, vendo-o com a maquina na mão, e tendo reparado que as fotos, eram reveladas no momento, pediu-lhe para lhes tirar uma foto. O Manuel, não sabia o que responder, e acabou por tirar a foto correspondente ao passado e mediante o resultado, explicou como pôde ao casal incrédulo. O jovem casal, implorou que rodasse o manípulo na direcção oposta e tirasse nova foto, desta vez, do futuro. Sem pensar muito nas consequências de tal acto, o Manuel acedeu. Na foto, apenas estaria um dos membros do casal, e os sorrisos desvaneceram. Os turistas agradeceram, ainda que visivelmente perturbados. Foi nessa altura que o Manuel, decidiu que não tirava mais fotografias do futuro. A não ser... uma última fotografia, que reservaria para o final do rolo.
Entreteve-se toda a tarde a recordar a Póvoa de Varzim, de há vinte anos atrás, e com ela, também o seu passado. Tinha-se esquecido do prazer que lhe proporcionava a fotografia. Havia tempo que não pegava na sua própria maquina. O rolo chegaria ao fim, restando apenas, uma última foto. Resolveu pedir a um Senhor que passava na altura, se não se importava de lhe tirar uma foto. Logo que este concretizou o pedido, o Manuel pegou na maquina e esperou impacientemente pelo papel preto e branco. Para sua surpresa, a foto, não estava vazia... reconheceu-se cerca de vinte anos mais velho, exactamente no mesmo sítio, com a máquina em cima de um tripé e um cartaz em que se podia ler: fotos que rejuvenescem. Cada 50 €. Estava a sorrir... E a foto, era a cores.
A maquina extraordinária, nunca mais revelaria a cores, e o Manuel, nunca mais se aproximaria da extremidade do molhe, com o propósito de se atirar. Nunca conheceria a sua origem ou o seu dono. Sabia apenas que a vida poderia ser a preto e branco até ao dia em que passava a ser a cores. Quem o quiser ver, e à sua misteriosa maquina fotográfica, basta deslocar-se à Póvoa de Varzim. Estou certa que o encontrará por lá.
Texto originalmente publicado em Novembro de 2009, no meu blogue, The Big Chill, e republicado no âmbito do desafio do mês de Março 2012, Fotografia- para Fábrica de Letras
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Tuesday, 28 February 2012
MUDANÇA DE NAIPE
Mariazinha, como era conhecida pelos vizinhos, com os seus 80 anos bem vincados na face de tez morena e nas mãos de árduo trabalho no campo, sempre fora uma habitante de bom trato, afável, trabalhadora, solidária e de bem com a vida na sua aldeia em Trás-os-Montes. Mesmo depois de ficar viúva, os anos não a amarguraram, mantendo a boa disposição, estando sempre pronta a ajudar quem precisasse. A vida dura no campo não lhe trouxera grande riqueza a não ser o seu marido Joaquim, que Deus lhe tirara há já uma década, aos setenta anos, depois de precisamente, 50 de convívio. Ela era a sua dama de copas, como ele gostava de lhe chamar. O Joaquim nunca fora um homem de vícios a não ser a sueca com os amigos à sexta-feira à noite no café do Sr. José. Nunca nenhum dos companheiros se lembrara de jogar por algo que não fosse o perdedor do dia pagar uma rodada de cerveja a cada um dos outros. Um dia, o Joaquim fez uma coisa que nunca fizera no café do Sr José. Jogou no totobola, apostando o mínimo possível pois a sua parca reforma não lhe permitia o devaneio de pensar em múltiplas. "Gostava de comprar umas alianças de ouro para oferecer à Maria nas bodas de ouro", pensou e foi esse pensamento que o fez apostar na sorte. Quando casaram, o Joaquim não tinha dinheiro para anel de noivado, nem para as alianças, fazendo sempre intenção de as comprar mais tarde. Mas as dificuldades e prioridades foram sendo substituídas e nunca houvera o suficiente para elas. Até ao dia em que ganhou o segundo prémio do totobola dessa semana. Não era uma fortuna e esse montante daria até para alguma poupança inexistente, mas a vontade de finalmente cumprir a promessa de as adquirir, e de fazer feliz a sua companheira de uma vida, fez o Joaquim ir de táxi até à cidade e comprar duas alianças em ouro que sabia iriam encantar a Maria, a sua dama de copas. "És a minha dama de ouros agora" disse ao chegar a casa nesse dia.
Quando o Joaquim faleceu inesperadamente devido a um enfarte daí a uma semana, Mariazinha passou a usar orgulhosamente as duas alianças juntinhas no anelar esquerdo. Até à tarde do dia 12 de Dezembro de 2011. Foi nesse tarde, aparentemente como todas as outras tardes, que dois homens forçaram a entrada na casa da Maria e entre berros, abanões e ameaças, exigiram que entregasse todo o ouro e dinheiro que tivesse em casa. Como esta disse que não possuía nem ouro, nem dinheiro, o mais novo deu-lhe uma bofetada e um empurrão que levou o seu frágil corpo de imediato ao chão, fracturando a anca e queimando a palma da mão na lareira acesa. Depois de revistarem a casa, partir a maioria dos poucos objectos estimados acumulados ao longo dos anos, deitar as gavetas, os cobertores e lençóis para o chão, voltaram à cozinha onde a Maria se encontrava no chão e deram alternadamente, pontapés no tronco e na cabeça, que a fizeram atravessar várias vezes os mosaicos pretos e brancos da sua cozinha, como se fosse uma peça inanimada num gigantesco tabuleiro de xadrez. Um deles, o mais velho, reparou nas alianças no dedo e como custavam a sair, pegou numa faca de cozinha e cortou ali mesmo o dedo anelar esquerdo à Maria, deixando-a a gemer e a sangrar enquanto se afastavam da casa. Os vizinhos levaram-na mais tarde ao hospital e Mariazinha sobreviveu mas depois dessa tarde, nunca mais foi a mesma. Algo mudara para sempre. Nesse dia, os ladrões não levaram apenas o ouro, mas também o coração da Maria. Passou a vestir-se exclusivamente de preto, a ter medo de dormir sem a luz acesa, ficou receosa de qualquer barulho, a tremer das mãos e e desconfiar de qualquer estranho. Nunca mais ninguém a viu sorrir e passou a dormir com um pau por baixo da cama.
Texto publicado no âmbito do desafio do mês de Fevereiro 2012, Metamorfose - para Fábrica de Letras
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Saturday, 25 February 2012
MAP ON A LEDGE
No alto do edifício, um vulto sobressai na luz que ainda se espalha pela fachada ao entardecer. Parada, de pé, no precipício do parapeito de uma janela de um dos muitos escritórios de economistas e burocratas do 2012º andar, a figura iluminada pelos últimos raios de sol do dia, chama a atenção de quem passa lá em baixo na rua. Rapidamente uma multidão poliglota, expectante, olha ansiosamente para o alto, apontando para o mapa suicida. Uns por curiosidade, outros por consternação solidária e outros ainda por temer que o suicida lhe caía em cima.
À medida que o sol desaparece por trás do edifício em frente, uma sombra gigante vai cobrindo lentamente a totalidade da frente do prédio. Coluna por coluna de janelas deixam de ser iluminadas como se apagassem as luzes por fases numa maqueta.
"Atira-te de uma vez!!", gritam alguns observadores confortavelmente instalados no edifício lateral.
"Não!!", ouviu-se de imediato entre a multidão, proveniente de peões que continuam no entanto o seu caminho para casa.
"Como te chamas?", perguntou a Psicóloga ao serviço da PSP, chamada a intervir na tentativa de salvamento.
"Eu?", respondeu sussurrando, "EU... EU.. EU...", soluça.
Após algumas horas de negociação, o mapa acabaria por confessar que já há muito tempo se sente à deriva e sem rumo, não se reconhecendo ao espelho. A Psicóloga nota no seu discurso, uma dificuldade latente em aceitar o seu corpo, rejeitando por completo alguns membros como se de entidades exteriores se tratassem, manifesto comportamento obsessivo-compulsivo de auto-flagelação e pensamentos recorrentes de amputação, com tendência para distorcer a realidade num quadro nitidamente esquizofrénico.
Surge então um momento de hesitação por parte dos agentes encarregados de dissuadir o suicida e após alguns minutos de confusão instalada, o mapa atira-se para o abismo (ou é empurrado... nunca ficou claro). Num gesto solidário, a multidão resistente, dá as mãos, tentando amortecer a queda. mas inesperadamente (ou talvez não...), algumas pessoas largam as mãos e o Tangram improvisado estatela-se no chão fragmentando-se em vinte e sete peças.
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Tuesday, 21 February 2012
Oportunidade Perdida
Ok, that does it!, pensei eu, no final da semana passada. Esta coisa de estar in sync com o Universo, tem que se lhe diga... por vezes, parece karma! Há dias assim... em que pensamos em alguém em quem já não pensávamos há semanas, e ela telefona ou aparece-nos pela frente! Lembramo-nos de algum actor por algum motivo e nesse mesmo dia, é exibido na TV, um filme com esse actor! Achamos que são meras coincidências, curiosidades, e não pensamos muito no assunto, mas quando as coincidências se tornam rotina, estupefacta e arrepiadamente, sincronizadas e repetentes... pensamos um bocadinho...A semana que passou, foi prodigiosa em exemplos destes, que se sucederam à velocidade da luz (ok, talvez não tanto...), principalmente na blogosfera! Sempre que pensava num tema para desenvolver no blogue, via-o tratado nesse mesmo dia, noutro blogue; sempre que tinha uma ideia para um conto, lá estava ela, mais coisa, menos coisa, escarrapachada num outro blogue ( a mesma história, "originalíssima"!); sempre que ia escrever um determinado comentário brilhantemente engraçado, inteligente e original, já alguém se tinha antecipado (por vezes, por meros segundos!)... enough sync already!!
Mesmo quando estava a desconfiar de uma global conspiração para me afastar da blogosfera, através de um roubo concertado dos meus pensamentos, ocorreu-me que talvez fosse precisamente o inverso... eu é que estaria a inspirar os demais autores (modest... aren't I?). Lembrei-me subitamente daquela visita do Uri Geller a Portugal aqui há anos, em que, não sei por que fenómeno telepático, o meu relógio avariado recomeçou a trabalhar... juro, isto foi verdade mesmo, e não foi só dar corda, pois só recomeçou depois de à terceira, dizer em uníssono com ele, na tv, TRABALHA! (ou algo equivalente... já não me recordo). Portanto, vai daí... pensei, e se fosse, antes, uma revelação, de uma nova aptidão de leitura do Universo? Uma percepção extrasensorial, apurada no prazo de uma semana? Mas... isso teria uma vastidão de implicações importantíssimas... Seria devido a um alinhamento celestial invulgar? Seria um sinal, uma luz? Estaria a ficar clarividente? E mais importante ainda, seria caso de comprar uma cautela da lotaria do Carnaval ou de jogar no Euromilhões?
Enquanto meditava nestas questões de relevância extrema (calculo que saibam a qual delas, me refiro...), lembrei-me de ter visto algures, um desafio que incluia a publicação de uma nota manuscrita, lembrei-me da riqueza de informação contida na forma como escrevemos e depois, lembrei-me que até possuía um livro sobre a interpretação de caligrafia. Foi nesse momento que me lembrei que ainda havia pouco tempo, me tinham pedido para interpretar um sonho... e que, sobre interpretações de sonhos, até devia ter vários livros... logo a seguir, veio-me à ideia, a existência na estante de um livro (oferecido), sobre a leitura das cartas de Tarot (com cartas e tudo) e de um outro sobre Quiromancia (a leitura das linhas da mão). E, como elas são como as cerejas, ideia puxa ideia... e num filão de inspiração e de total convergência com os sinais dos astros e da nova aptidão revelada, eis que resolvi disfarçar-me este Carnaval, que começou mais cedo, de Vidente!
Na ausência de um fato amarelo e preto às riscas (as linhas horizontais, decididamente nem me favorecem), optei por um look inspirado no Francisco Cuoco (estão a ver, turbante e tudo?). Sendo uma mulher prendada em ofícios manuais, e com bastantes recursos (imagéticos), elaborei uma fantasia a preceito. Vesti-me então a rigor, à cigana luxuosamente adornada, pequei nos livros, cartas, artefactos e decorações esotéricas, e para dar mais credibilidade à pretensão de fazer futurologia, pequei na tampa dum decanter (presente de casamento...), para servir de bola cristal ( que era, de facto). Montei a barraquinha, comme il faut, com velas, incenso, etc, e sentei-me à espera de clientes.
Qual não foi o meu espanto, quando vi abrir a cortina da entrada, os diversos membros do governo e da oposição, que entraram à vez. "Que grande barraca", disseram os primeiros. Até nem era... era daquelas de praia... "Alguém nos ouvirá?", perguntaram os segundos. Aparentemente, havia uma certa confusão entre clarividência, e espiritismo... A todos, atendi gratuitamente (é o espírito cívico em mim... sabia ser fundamental para o País, lá está). Agradeceram todos as minha previsões*, despedindo-se cordialmente. Foi só depois de saírem todos que me lembrei que em tempos tinha feito um workshop em Hipnoterapia... porque Diabo, não me lembrei disso mais cedo?????
*Confidenciais sob segredo ético/profissional (o leilão, inicia-se nos 1000 euros...)
Nota: Texto publicado em Fevereiro de 2010 no meu blogue The Big Chill , mas que poderia ter sido escrito hoje!!
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Tuesday, 14 February 2012
Um S.Valentim em Silêncio
Num sofá de porcelana, um casal de ursinhos, também de porcelana, jura amor eterno. De coração de porcelana avermelhado pela paixão ardente que os une e de mãos dadas, tentam equilibrar-se na posição inclinada em que se encontram na gaveta. O sofá, outrora, orgulhosamente exposto em cima da televisão da sala, exibindo recados de amor presos por uma pequena mola, tinha sido relegado para o fundo de uma gaveta no armário da sala. Atirado com raiva e desdém, para o interior daquele local distante, longe da luz do dia, da vista e do coração de um homem, tinha ficado de lado, inclinado, obrigando os ursinhos de porcelana a enfrentar a adversidade da posição inconfortável e de difícil equilíbrio, para além de ter entortado a mola. Mas isso nunca demoveu a vontade de permanecerem unidos, juntinhos, de mãos dadas. Tinham sido remetidos a recordação penosa e incómoda, assim como as cartas de amor, os postais e recados, que passariam a meros adereços de um amor do passado, juntando-se a teias de uma aranha, e a tantos outros vestígios de paixões ultrapassadas.
Ainda se lembravam do S Valentim em que tinham sido retirados da montra da loja, junto de outros ursinhos de coração vermelho de porcelana. Tinham ficado tão orgulhosos de terem sido os escolhidos! Iriam partilhar o seu amor com o amor do casal destinatário. Sentados no seu sofá de amor, em frente a um outro sofá de amor, com um outro casal de mãos dadas, seriam cúmplices da paixão mútua. Que felizes eram então! Veículos de recados manuscritos, velariam pelo casal apaixonado até ao fim dos tempos.
Mas a eternidade das relações, dita o seu próprio prazo, quando estas terminam. Neste S. Valentim, não estavam mais em cima da TV, nem frente a outro sofá. Não eram mais cúmplices de amor alheio. Não partilhavam mais de festejos românticos, carícias e mimos, não presenciavam mais discussões e reconciliações ardentes. Não ouviam festejos na sala. Apenas o silêncio da solidão. Quem sabe, também, o silêncio, cúmplice da saudade. E no entanto, mesmo no seu novo lar desaconchegado na gaveta, a sua paixão ardia como nunca... os corações de porcelana, continuavam vermelhos e continuavam juntinhos, de mãos dadas, mesmo esquecidos na escuridão. Por baixo do peso de tantos papeis, fotos e velhas recordações, trocam juras de amor eterno, no silêncio da cumplicidade de quem ama incondicionalmente, todos os dias, e apenas anseiam por um raio de sol.
Nota: Texto originalmente publicado no meu blogue The Big Chill, em fevereiro de 2010.
Tuesday, 7 February 2012
Consequências de uma leitura precipitada
Eduarda não queria acreditar no que estava à sua frente. O homem insultava a mulher repetidamente, humilhando-a, rebaixando-a cada vez mais. A mulher, talvez porque estaria habituada a estes insultos, tinha entrando numa espécie de transe de indiferença, ou talvez porque temesse represálias físicas, mantinha-se calada. O discurso do homem, tornava-se cada vez mais insuportável de aguentar. Eduarda pensou se deveria intervir e ainda hesitou, sendo certo que estava a assistir a tudo, do lado de fora. Mas, a falta de iniciativa por parte da mulher em se defender, começava a irritá-la e ela não resistiu. Pegou num canivete que tinha na carteira e num golpe rápido e seguro, espetou-o mesmo na letra h. O "h"omem, fragilizado, vendo-se virilmente atacado, começou a rastejar pela página fora, deixando um rasto de sangue que encobria as restantes palavras.
Eduarda, era uma leitora compulsiva, e raramente se deixava abater ou irritar com os personagens, mas este fora longe demais. Em consciência, sabia que não deveria ter alterado o percurso da história, mas naquele dia, a sua revolta levou a melhor e precipitou-se. Arrependeu-se mal o tinha feito. No entanto, sabia que qualquer história podia ter reviravoltas surpreendentes e não se deixou intimidar, limpando rapidamente a mancha de sangue com um guardanapo de papel. Destes que temos sempre à mão num qualquer bolso. Por esta altura, o desenrolar da história estava comprometido e o desfecho tornara-se totalmente imprevisível. Esta intromissão em história alheia, viria a revelar-se trágica.
Covardemente, temendo um novo ataque e aproveitando o facto de meia página ainda se encontrar coberta de sangue, o "h"omem atravessou o livro pelo buraco feito pelo canivete, indo se esconder na página seguinte, por baixo de uma cama, sendo surpreendido com uma arma carregada ali mesmo à mão de semear. Ofegante, aguardou pacientemente que a leitora virasse a página. Esta, desconhecendo a existência de qualquer arma no desenrolar do romance e na sua inocência, posto que era a primeira vez que lia aquele livro, virou a página.
Os vizinhos de cima da leitora, relatariam mais tarde à polícia que ouviram distintamente, dois tiros. Mas dada a idade avançada dos mesmos, não lhes foi atribuída qualquer credibilidade. Até porque, como acabou por constar no relatório da autópsia, a Sra Eduarda, viúva, reformada, moradora naquele prédio há mais de trinta anos, tivera morte natural.
O agente da Polícia, ainda explicou repetidamente aos insistentes vizinhos incrédulos que não havia sinais de entrada forçada, objectos remexidos ou furtados nem sinais de agressão e que provavelmente a Sra Eduarda teria tido um AVC, hipótese corroborada pela evidência que teria entornado um copo de vinho tinto no livro que estava a ler.
Inconformado com o sucedido, e com a passividade das autoridades, mal estas abandonaram o local ,o casal de vizinhos, certo dos sons ouvidos aquela tarde, voltou a casa da Sra Eduarda, Dadinha como era por eles conhecida, dado que a conheciam desde a altura em que se tinha casado com o Sr Alfredo, então, porteiro do prédio.
Rapidamente encontraram o enigma em formato de papel. Com muito custo, dado que tinha várias páginas coladas, abriram o livro manchado de encarnado e leram o único parágrafo ainda legível:
"...mem, ferido novamente, ainda consegue disparar a arma, atingindo mortalmente a mulher, sucumbindo depois, aos próprios ferimentos, não sem antes, ter disparado uma última vez"
Instintivamente,o Sr. Joaquim, ainda chamou uma ambulância, mas a sua esposa morreu nos seus braços antes que ela chegasse. O seu primeiro e único amor tinha desaparecido para sempre. A dor, insuportável. A solução, num rasgo de lucidez, seria a única possível. Tornou a abrir o livro na mesma página, esperando ir ao encontro da sua companheira de toda uma vida. Mas as lágrimas do Sr Joaquim sobrepunham-se às nódoas de sangue escuras, diluindo-as e as palavras emergiam uma a uma mais visíveis:
"...não sem antes ter disparado uma última vez no próprio peito."
"O quê?", grita em desespero o Sr Joaquim. "Não!!!"
Abandonado ao seu desgosto, olhou para o corpo da sua amada no chão da sala da Dadinha.
"Não!!!!", gritou de novo. Balbuciando o nome da mulher repetidamente, pegou numa caneta azul que trazia no bolso do casaco. Dessas que nos oferecem como brinde no início do Ano. E com ela, sarrabiscou violentamente as três últimas palavras do texto. Leu-o novamente, antes de cair sorrindo sobre o corpo da sua esposa.
Não foi encontrada qualquer explicação para estas mortes e a comunicação social apenas referiu a data do duplo funeral. Mas o livro avermelhado, foi mais tarde confiscado pelas autoridades policiais. E após a morte súbita e inesperada do Agente Domingues, destruído.
Nota: Texto originalmente publicado no meu blogue The Big Chill em 2010.
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Monday, 30 January 2012
Um crocodilo no peito

Tenho no peito um crocodilo. Está lá desde que me lembro como gente. Assim, sossegado, sem interagir com quem passa. Este meu crocodilo não é verde, nem está bordado lateralmente numa qualquer camisola, mas um crocodilo imenso, tão imensamente real como eu própria... Sinto-o, como uma invisível tatuagem permanente, como quem tira a camisola de um clube mas sabe que permanece gravado no peito um leão, uma águia ou um dragão. Não me lembro como foi exactamente, sei que inicialmente éramos cinco guardiãs de um tesouro escondido na boca do crocodilo. Tal como outros guardiões de lendas e segredos milenares, haviam códigos secretos por inventar e decifrar, palavras- passe e rituais de pré-adolescência, mapas de tesouros e aventuras e mistérios por criar e desvendar... Pois se haviam 5 peitos, 5 crocodilos haveriam de coexistir. Dos respectivos crocodilos das restantes guardiãs, ignoro o destino... talvez tenham crescido demais...
Por vezes, muda de posição, fica de lado ou de frente, e depois vira de novo. A cauda fica sempre curva. Suponho que não tem grande espaço lá dentro. Afinal, o meu peito não foi feito para comportar crocodilos. E no entanto, ele lá está. Volta e meia, algo mexe com ele e fica mais agitado, nostálgico De noite, o meu crocodilo enrosca-se nos meus sonhos, no meu peito de carne e osso onde as encostas estão cobertas de chorões cor-de-rosa, explora ruínas arqueológicas, bouças e casas abandonadas, aventura-se em minas subterrâneas, passeia entre filas fartas de macieiras com maçãs por apanhar, ou simplesmente estende-se ao sol num areal improvisado em redor de um lago pintado de verde. No meu peito de carne e osso, mergulha num pântano mágico nocturno em busca de um qualquer crocodilo no peito das restantes guardiãs. Em vão, adormece tardiamente no único peito que ainda o acolhe....
em memória do Clube do Crocodilo
Santo Tirso, 26 de Janeiro de 2012
Sunday, 22 January 2012
Ponto de Caramelo
Não conheço ninguém, que ponha o pacote de açúcar inteiro no café. Conheço quem não tome café, quem tome café sem qualquer açúcar (dizem os entendidos, que é assim que deve ser tomado...) e depois, conheço aqueles que tal como eu, coloca 1/2 a 2/3 do pacote de açúcar na chávena. Agora... que coloquem todo o pacote, não conheço ninguém! Porque insistem os fabricantes destes pacotes, em regra com cerca de 7 g, em colocar mais açúcar do que a média dos Portugueses consome, por café? Já viram que desperdício? Curiosamente, vejo as pessoas a fazer exactamente aquilo que eu própria faço, ou seja, a dobrar, muito dobradinho o pacote para que não saia o restinho de açúcar, como se alguém o fosse aproveitar! Como se, o proprietário do café, fosse identificar os pacotes com algum conteúdo e os armazenasse, aproveitando-o para algum fim útil... mas na realidade, não é isso que acontece... vai mesmo todo para o lixo!
Ora... tendo em conta as estatísticas de consumo de café da população Portuguesa, (que, pelos vistos, fica aquém de outros Países, mas ainda assim, é considerável) e o número de pacotes ainda com metade ou um terço de açúcar, que vai para o lixo, isto significa, que várias toneladas de açúcar foram parar às lixeiras e aterros... acabando por infiltrar-se no solo... Se seguirmos este raciocínio, o nosso território nacional, é portanto um doce!! Esta gigante guloseima, que dá em troca um beijo salgado a numerosos turistas, mas deixa um sabor amargo nos Portugueses, poderia atrair mais predadores sedentos, nomeadamente investidores estrangeiros... mas em vez disso, atrai cada vez mais, parasitas nacionais que sugando o Estado,vão ficando cada vez mais obesos (engordando o seu próprio cofre), como uns tais gestores de empresas públicas que auferem ordenados e prémios astronomicamente absurdos, enquanto as formigas trabalhadoras recebem cada vez menos pelo seu trabalho.
Sendo que a maior parte do lixo, é hoje incinerado, e portanto, o açúcar caramelizado, também é lícito, dizermos que o País é uma espécie de caramelo. Ora, que o País tem andado de um lado para o outro, enquanto abrimos a boca de espanto, é já sabido, assim como o facto de estar bastante amolgado. E também temos todos consciência que por mais que tentemos, custa-nos a engolir certas coisas que se passam ao nível da justiça e não só... Parece-me então que se confirma, que o Estado tem tendência a nos ficar atravessado na garganta. Também sabemos que o açúcar a mais, pode causar cáries... ou seja, grandes buracos... nas estradas, nas finanças, nos orçamentos, nas carteiras...
Resumindo e concluindo, as refinadoras deveriam pensar seriamente na hipótese de reduzir a quantidade de açúcar em cada pacote, pois para além do País se ter tornado diabético (insolência-dependente) e ter de ser assistido regularmente, num Banco de urgência, (a milhares de kms de distância, evidentemente), corre o risco de enjoar dele próprio!! Aliás, as complicações secundárias a esta enfermidade estão à vista, problemas na circulação (dado os preços dos transportes públicos), falta de visão a longo prazo, e a enorme impotência sentida pela população... temo sinceramente, que se esse açucar excedente continue a ser incinerado, o País acabe gangrenando e não tenha pés para andar...
Nota: Texto adaptado de uma minha crónica publicada no blogue A Voz das palavas em 2010.
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Wednesday, 28 December 2011
A MINHA TRAVESSA DO FERREIRA
Quis o destino, que eu partisse já deste mundo. No auge da juventude, vi-me privada das alegrias e também das tristezas inerentes à vida terrena .Partilho hoje convosco a minha curta história que estou certa vos comoverá, pois trata-se de uma verdadeira história de Natal.
Foi um dia memorável na minha vida. Um momento único... um daqueles momentos, que sabemos nunca se repetirá e que mudou completamente a perspectiva que tinha da minha vida até então. Tudo aconteceu numa ceia de Natal em casa da família Ferreira. Até aquele momento, a vida parecia-me uma encruzilhada sem sentido. Sentia-me presa numa trama sem saída.
Desde a hora em que apareci ao mundo, senti que era diferente. Essa diferença era evidente aos olhos de todos. Por mais que eu não pensasse nisso, acabava sempre por ouvir vozes com um ou outro comentário discriminatório. Naquela mesma noite, já ouvira várias... Sentia-me só no seio da minha família. Tradicional e inflexível, esta exaltava qualidades como a disciplina e a rectidão, como linhas orientadoras, não admitindo qualquer desvio às regras impostas. Todas as minhas irmãs, eram muito "direitinhas". Eu, era o oposto.
Nasci torta, por assim dizer. Desde o início, era diferente das minhas irmãs, mesmo nos traços físicos, pois estas possuíam feições mais finas. Sempre me tinham acusado de não ter uma direcção definida, de nunca saber o que queria, nem para onde ia, de já ter feito tantos deslizes, que seria difícil retomar um percurso respeitável. Por outras palavras, tinham vergonha de mim... relegando-me para um canto. Mas apesar disso, sentia que tinha um fim a atingir, bem definido, e que, embora o meu trajecto não fosse talvez, o mais convencional, era digna do mesmo respeito.
Foi precisamente no final da ceia de Natal, quando foi colocada a travessa em frente ao jovem Ferreira que uma resposta vinda do alto, me encheria de orgulho, e me traria felicidade e paz interior antes de partir:
"Avó, já reparaste que esta linha de canela na Aletria, está mesmo torta?!"
"Pois está meu querido! A minha mão tremeu um bocadinho no canto da travessa... deixa lá, nunca ouviste dizer que Deus, escreve direito por linhas tortas?"
Por isso, caros leitores, nesta época de provações e grandes incertezas quanto ao futuro, eu, a linha de canela do canto esquerdo da travessa, deixo-vos esta mensagem para que se lembrem de manter a esperança em melhores dias. Eu e a autora deste blogue, na esperança de que tenham tido um feliz natal, desejamos a todos os leitores, seguidores e amigos deste blogue, um Ano Novo o mais feliz possível e não se esqueçam que são sempre as massas que mudam o mundo!!
Nota: Com este post, continuo a rubrica Diz-me como se chama o teu blogue, que eu dir-te-ei o que me apetecer, respondendo a mais um dos muitos pedidos recebidos. Relembro que o conteúdo destes meus contos ficcionados nada têm que ver com os blogues referidos ou com os seus autores, sendo o título do blogue, o único elo comum. Neste caso, o blogue A minha travessa do Ferreira. Espero Henriquamigo que esteja do seu agrado!!
Sunday, 30 October 2011
DIÁRIO DE UM ANJO

Dia 30 de Outubro de 2011,
Hoje é o 48º Aniversário da humana cuja alma eu guardo de noite e de dia sem qualquer folga, há exactamente o mesmo número de anos. Não se passou nada de especial a relatar até esta hora. Ao meio-dia, houve um almoço familiar e convivi com os anjos respectivos dos familiares presentes. Trocamos algumas impressões sobre as respectivas condições de trabalho e fiquei a saber que o Sindicato dos Anjos convocou uma greve para o próximo dia 1 de Novembro. Estou um pouco preocupado/a com a alma desta humana. Quer-me parecer que anda muito cansada, deprimida e desmotivada.. Tenho tentado protegê-la o melhor que soube... mas tem sido uma árdua tarefa ao longo destes muitos anos. Há já alguns meses que ela se tem tornado cada vez mais soturna e pesada tornando as minhas condições de trabalho extremamente difíceis. É que eu também já não sou novo/a...
Neste momento, a humana dorme a sesta e aproveito para escrever estas linhas neste diário. Sonha como já vem sendo hábito, com um pirata de pala no olho numa praia da Póvoa de Varzim... já não há paciência para a falta de variedade e monotonia nos sonhos!! Ora, eu nem me importo de andar sempre atrelado/a e de guardar a alma dela a toda a hora, mas honestamente, também estou a precisar de descansar! Decidi por isso aderir à greve convocada pelo Sindicato dos Anjos, e se as negociações não obtiverem resultados, pensarei seriamente em pedir ao Chefe lá em cima, uma transferência, de preferência para um recém-nascido que dá muito menos trabalho. Não havendo nenhuma razão em concreto e no entanto, sobejando um conjunto vasto de razões pessoais e familiares, esta alma que me foi designada encontra-se tão profundamente desmotivada e triste que o Diabo já me confidenciou que nem de graça a quereria...
Nestas duas últimas semanas, tornou-se ligeiramente mais leve aquando da visita à filha mas rapidamente retomou o seu peso insustentável, de tal forma, que a humana que a carrega decidiu publicar substancialmente menos nos seus blogues e suspender temporariamente as visitas aos restantes blogues nesta blogosfera que se torna tão exigente quanto cativante. Espero que os seus leitores compreendam e lhe perdoem a ausência dos seus espaços, pois ela está mesmo a precisar de descansar e de recuperar a motivação. Quanto a mim, espero não ter de pedir transferência porque apesar de tudo, ao fim de 48 anos ao serviço da Eva, afeiçoei-me a esta mortal cuja alma muito me orgulho de ter protegido...
Nota: Com este post, continuo a rubrica Diz-me como se chama o teu blogue, que eu dir-te-ei o que me apetecer, respondendo a mais um dos muitos pedidos recebidos. Relembro que o conteúdo destes meus contos ficcionados nada têm que ver com os blogues referidos ou com os seus autores, sendo o título do blogue, o único elo comum. Neste caso, o blogue Diário de um anjo. Embora eu tenha aproveitado o texto para uma espécie de confidência e justificação da diminuição de publicações e da minha ausência no futuro próximo dos restantes blogues, espero que, apesar de tudo, esteja do agrado da sua autora...
Friday, 14 October 2011
Exterminadora implacável

Já não as aguentava mais. Estavam em todo o lado... na cabeçeira da cama, nas estantes, na cozinha, no sofá da sala. a casa estava absolutamente infestada... até na casa de banho não havia sossego. Primeiro, começou por abaná-las com um leque, mas elas continuavam a esvoaçar à sua volta. Depois, apesar de não ser dada a violência, ainda tentou espetá-las com uma caneta afiada, tal era a sua raiva... de nada adiantou.
A companhia de desinfestação garantiu que elas eram de tal ordem, que já nem era trabalho para técnicos... admitiu sair de uma vez daquela casa, mas não ia deixar que elas lhe controlassem a vida. Pulverizou-as de insecticida potente... de nada adiantou. Então de noite, era insuportável. O medo de que lhe trepassem pelo corpo acima era tal que não ia dormir sem ter a certeza que tinha afogado pelo menos algumas. Um dia estava tão irritada, que lhes começou a dar com o telefone! Cada uma que aparecia, tumba! Telefone com ela... o problema é que elas multiplicavam-se de tal maneira que matava uma, apareciam logo meia dúzia... tudo que ela fizesse, elas sobreviviam as danadas.
Lembrou-se então do computador e como era mais pesado...talvez fosse mais eficaz. Mandou-lhes com o portátil em cima dezenas de vezes e nada... por mais que tentasse matá-las, elas eram impertinentes, ferozes e implacáveis as malvadas!!! Precisava de uma coisa mais eficaz... uma coisa grande que acabasse com todas de uma vez... o ideal era um avião... não, isso também é pesado demais, pensou e até se riu da ideia.. Naquela noite, elas torturaram-na tanto que decidiu exterminá-las de uma vez por todas. Elas agora é que iam ver quem mandava!! "E se eu fosse matar as saudades da tua irmã de avião?" perguntou ao filho. "Boa viagem! Já ninguém te aguenta a pulverizar os passepartouts da sala com insecticida mãe!"
P.S. Me voy a ver mi hija... solo unos dias... Hasta la vista baby(s)! :))))
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